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Tempo para ler tudo

Martha Medeiros

Troquei de apartamento há três semanas. O pessoal da mudança ficou impressionado com a quantidade de livros para colocar no caminhão, e olha que, comparando com algumas bibliotecas particulares que conheço, sou uma indigente intelectual. Mas alguma coisa eu tenho. E quando desencaixotei este “alguma coisa”, coloquei tudo de qualquer jeito nas prateleiras, sem ordem, sem juízo.

Pois bem. Eis que chegou um domingão nublado, daqueles que a gente tem vontade de fazer algo útil, desde que não seja trabalhar, e resolvi: vou organizar os livros na estante. Coloquei uma música suave, uma roupa confortável e me joguei para dentro das prateleiras, separando primeiro os livros nacionais dos estrangeiros, depois separando o que era ficção dos livros de ensaios e biografias, e por último colocando tudo em ordem alfabética pelo nome dos autores. Resultado: gastei mais de sete horas nesta função e fiquei um bagaço, física e emocionalmente falando.

As dores nas costas e os dedos sujos de poeira nem foram o mais grave. O pior foi constatar que jamais vou conseguir ler tudo o que me aguarda e muito menos reler os meus top-100, aquelas obras que me encantaram aos 20 anos e que mereciam um “vale a pena ler de novo”. Entre todos os livros que eu compro e mais aqueles que ganho, o volume aumenta sem que eu possa consumi-los num prazo razoável. Antigamente eu lia um livro a cada dois ou três dias, ficava com ele ao menos uma hora inteira na cama e ainda dava tempo para fazer outras coisas por ali mesmo. Hoje vou pra cama e mal consigo vencer 10 páginas, os olhos começam a despencar e de repente não sou mais dona de mim: ferro no sono. Quanto a fazer outras coisas, ajude-me a lembrar: que outras coisas?

A arrumação dos meus livros me fez bem e me fez mal. O bem veio da viagem sentimental que foi recordar os trechos sublinhados, as anotações ao pé da página, as livrarias onde comprei cada volume, as dedicatórias que valorizam alguns exemplares. E o mal veio da culpa: vou ter que doar um bom número deles, aqueles que sei que não lerei jamais, para abrir caminha para os que vêm pela frente.

Só mesmo pegando uma prisão perpétua para poder dar conta de todos os clássicos que eu ainda estou me devendo e de todos os autores contemporâneos que lançam um ou dois livros por ano, sem falar daqueles que editam por conta própria, enviam pra gente e aguardam uma palavra de incentivo. Impossível, só mesmo trancafiada numa cela noite e dia. Mas que crime terei que cometer para merecer tal reclusão? Pensei em desvio de dinheiro público, formação de quadrilha e sonegação fiscal, mas isso, aqui no Brasil, me daria o quê, uns 40 dias? É pouco, mal conseguiria ler a obra completa de Borges.


Domingo, 6 de novembro de 2005.



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